Alfarrábios resistem ao avanço da tecnologia nas ruas de Maceió

Os tradicionais livreiros contam histórias de sua trajetória e luta para compensar o baixo faturamento no Centro.

Por Bruno Presado

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Sebos adaptados em barraquinhas de ferro (Foto: Bruno Presado)

Uma avenida estreita amontoada por lojinhas de departamentos, trabalhadores árduos e uma tonelada diária de poluição. Seja dos automóveis ou motocicletas. É o elo para vários bairros da capital e, vez ou outra, o congestionamento continua sem solução do próprio planejamento da prefeitura. Nem mesmo parado nos sinais, os motoristas arriscam matar a curiosidade do outro lado da rua. O que estaria invisível, afinal? No coração do Centro, especificamente na Av. Barão de Atalaia, sobrevive as relíquias que o tempo não apagou, só preservou para demonstrar que a literatura continua viva, sobrevivendo e respirando sem ajuda do poder público nas ruas de Maceió.

Ali, os alfarrábios ou conhecidos “sebos” – no dialeto mais popular – passaram a ser espaços históricos que recontam, ou até confundem, a história da capital alagoana com poucas firulas ou evoluções. Continuam iguais ao passado carregando consigo o peso do desinteresse pela leitura. Abandonados no Centro? Nada disso! O faturamento continua caindo, mas, o público é fiel aos ambientes favoritos. São locais ideais para trocar livros, comprar ou garimpar histórias esgotadas em livrarias ou, até mesmo, doar leituras para outros olhares e gerações. Há quem pense, aliás, que os acervos se resumem apenas aos escritos. Também há música e filmes nos “sebos” e, olha, em formatos que precisam de equipamentos próprios para o consumo.

“Estou trabalhando sem parar há 40 anos. Só mudei de banca. Antigamente, trabalhava em uma padaria e aí, quando tive oportunidade de ter meu espaço, passei a vender confeitos. Só que isso não dava lucro e precisava sobreviver de alguma maneira. O ônibus pegava e deixava os passageiros aqui e, na época, as pessoas sempre perguntavam por revistas. Era a minha chance”, disse o livreiro Dorival da Silva, que prefere ser conhecido como uma relíquia.

Arrumando as revistas, Dorival conta que o ex-prefeito de Maceió, Pedro Vieira da Silva, arrancou a bancas que ficavam nas praças públicas para evitar a comercialização de livros. Em 92, alguns espaços chegaram a ser cercados por suposta depredação da natureza ou desorganização do espaço. O curto mandato de Pedro – elegido por votação indireta – deixou irregularidades administrativas na capital. O livreiro lamenta que cada gestor muda a organização da avenida. “Retiraram todos meus amigos na época. Saiu o Aleijado, o Roni, o Petrúcio e o China. Sem ajuda alguma, tiveram que vender o carro para montar novas banquinhas de ferro e ocupar a rua novamente”, ressalta.

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O amigo de Edvaldo vigiava a banquinha (Foto: Bruno Presado)

No olhar mais popular, a frenética Barão de Atalaia separa a classe dos livreiros mais afortunados dos batalhadores que esperam calmos – e sentados na calçada – para fechar as vendas do mês. Haja disposição. Tudo para pagar uma taxa de ocupação que custa, em média, R$ 100 por mês no orçamento apertado. A avenida é quase considerada a Faixa de Gaza. No lado esquerdo, espaços simples, minúsculos e sem conforto algum para ocupar catálogos gigantescos de livros, cds, vinis e dvds. Não sobra uma brecha pra sentar, por exemplo. No direito, os livreiros pagam aluguéis exorbitantes para preservar a paixão para clientela mais fiel. Existe quem se arrisque a conservar dois lugares abertos ao mesmo tempo. Frente a frente na mesma localidade.

“Estamos condenados a viver a história novamente”. Dono de dois sebos, Edvaldo José investe na comercialização de vinis desde 1993 – quando houve a passagem para o CD – e enfatiza, em palavras apaixonadas, que não falta fanáticos pela identidade artística das bolachas. “As próprias gravadoras estão percebendo isso ao regravar vários artistas no formato. Agora é um artigo de luxo, né? Dá uma pesquisada na internet e olha os preços. As pessoas não tem vergonha em cobrar caro. Aqui, por exemplo, continuo a trocar ou vender por cinco a dez reais”.

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A coleção de vinis de Edvaldo José (Foto: Bruno Presado)

Edvaldo lamenta, aliás, que o mercado de produtos usados está instável comparado a dois anos atrás. Segundo ele, o faturamento das lojas físicas sofreram uma queda de 40 a 50%. “Não há melhora, e o governo apresenta mais e mais impostos para atrapalhar a vida do pequeno empresário”, ressalta. O livreiro contabiliza que não tem dinheiro suficiente em caixa para pagar o aluguel do mês. Paralelo a isso, e fugindo dos tributos, alguns alfarrábios passaram a investir seus esforços em soluções mais práticas. Apenas usando uma câmera na mão, um texto afiado e o local certo para divulgação. A venda dos produtos nas redes sociais ou portais dedicados a isso – como a Estante Virtual – viraram alternativas para baratear os custos de operação.

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Edvaldo ajuda o cliente a selecionar um vinil (Foto: Bruno Presado)

Um site simples com livre acesso aos assíduos na leitura. Essa é a Estante Virtual. O e-commerce passou a ser construído por uma necessidade do próprio fundador, André Garcia, que não conseguia encontrar os livros indicados no mestrado de Psicologia Social. A partir disso, o site passou a ser ponto de encontro para ampliar o acesso aos livros e, claro, empoderar pequenos livreiros na sua presença online. “Edições novas eram caras para um estudante, alguns livros estavam esgotados e pouquíssimos sebos tinham sites, apenas seis deles estavam com seu acervo disponível na internet”, comenta a empresa.

O diferencial do mercado virtual é a bibliodiversidade. A assessora da Estante Virtual, Adriane Constante, explica que alguns títulos esgotados são encontrados facilmente nas lojinhas virtuais por agrupar acervos em todo Brasil, ou seja, os escritos continuam a trajetória para contar de mão em mão. No primeiro semestre de 2017, os mais vendidos do portal foram “O Cortiço”, do Aluísio Azevedo, e “Vidas Secas”, do Graciliano Ramos, “A Hora da Estrela”, da Clarice Lispector.

Ao incentivar a leitura e curadores, a Estante Virtual demonstra que a interação constante nas redes sociais acaba disseminando o nome da empresa e, claro, fortalece sua presença online. Isso explica os números positivos na comparação com o mercado literário em queda. “Vendemos três milhões de livros no último ano. Somente no primeiro semestre de 2017 já foram vendidos 1,6 milhões de livros. Um crescimento de vendas de 10% em relação ao primeiro semestre de 2016”, comenta Adriane.

Buscando crescer cada vez mais sua coleção de livros literários, a estudante de jornalismo, Sarah Azevedo, não vê diferença nos preços praticados nos dois segmentos. Nas visitas ao Centro, ela passeia por alguns alfarrábios para trocar e buscar livros raros, mas, claro, comparando os preços para evitar gastar mais. “Sou apaixonada por histórias com alguma dedicatória escrita nas páginas. Parece que dá um ‘plus’ e torna aquilo mais especial. Uma vez, procurando um disco do Luiz Bonfá, encontrei uma mensagem na capa para uma fã. Minutos depois, o dono do alfarrábio contou rindo que o instrumentista tinha uma paixão pela mulher”, comenta.

Como experimento, Sarah também utilizou alguns mercados virtuais para repassar e adquirir seus livros. “Tomo cuidado na hora da compra, peço fotografias e referências para saber o estado e com quem estou comprando. Já perdi uma compra por não ter resposta do vendedor. Nas minhas vendas, por exemplo, não cobro preços absurdos por não querer extorquir o outro. É questão de ética mesmo. Se você procurar livros que não são editados vai encontrar absurdos. Livros que custam 150 reais, mas podem chegar até 400 reais”, ressalta.

O almoço na mesinha improvisada, no meio dos livros, e o Rendrikson Silva não consegue parar por um instante. Nem para cortar o frango com calma, ou mastigar o macarrão alho e óleo. É preciso ficar ligado para conquistar a clientela que aparece. E, peraí, chamei de Rendrikson? O Rei dos Livros, como gosta de ser chamado, está sentindo o efeito do desinteresse pela leitura. Segundo ele, o meio do ano é mais complicado para impulsionar o comércio de livros pela aproximação do recesso estudantil. Por isso, o Rei pede ajuda da irmã para alimentar as vendas nas redes sociais.

“Meu sebo tem páginas no Facebook e uma conta no Instagram. A venda pela internet é melhor por ampliar meus horizontes. Aí, repasso livro para fora do estado. A tradição do livreiro é antiga. Quando descobrem a minha loja, a clientela fica encantada e sempre volta de mês em mês. Era bom que voltassem todo dia, né?”, conta Rei, que nas horas vagas abre os livros de psicologia e sonha com sua formação na área.

A Estante Virtual ou as próprias redes sociais são opções para os pequenos vendedores ameaçados por grandes negócios. Ainda há poucas livrarias em Maceió. O empoderamento e perpetuação da tradição dos sebos tem aliados fortes para continuar presente de geração a geração na cidade e, claro, convivendo com outras marcas. Afinal, sempre há espaço para um novo bom livro na estante dos leitores.

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